Psicomagia


Psicomagia
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Numa entrevista recente ao Diário de Notícias, Alejandro Jodorowski definiu-se como um "psicomago" e o criador de uma forma de terapia psicológica - a Psicomagia - cujas raízes assentam não tanto na ciência mas na arte, em particular no mundo subconsciente de onde brotam todos os genuínos actos artísticos.

Psicólogo, actor, dramaturgo, escritor e autor de banda desenhada, a verdade é que é impossível definir este homem. Provocador e apaixonadamente feroz na transmissão dos seus saberes como se de um tango se tratasse, está imbuído aos 89 anos por uma criatividade revolucionária ímpar e uma voz que apela à libertação da essência de cada ser e de tudo aquilo que impede a energia interior de fluir.

Critica o mundo por viver numa era de preconceitos com uma tendência cada vez mais crónica para falar daquilo que não conhece, daquilo que nunca se experimentou. Um bloqueio que traz como resultado a ruptura do intercâmbio entre a matéria e o espírito, a luz e a escuridão, o bem e o mal, o eu e o outro. Esta mentalidade preconceituosa é uma prisão mental da qual todos temos a responsabilidade de nos libertar.

Assim, achei por bem dar um lamiré nas suas principais ideias e apresentá-las de forma acessível, em particular a psicomagia que é um assunto de que pouco se fala em Portugal. Não que eu seja um grande especialista na matéria mas sim um psicoterapeuta curiosamente interessado em tentar cativar interesses nestes campos terapêuticos e que partilha a opinião de que o mundo das experiências vividas é muito mais rico, inovador e fértil do que o mundo dos conhecimentos preconceituosos ou adquiridos.

Sobre a Psicomagia

Jodorowsky passou muitos anos na capital do México a observar os métodos de muitos curandeiros e xamãs a tratarem das mais diversas enfermidades, sendo que uma das principais lições que aprendeu foi a de que a cura e a terapia em si são formas de arte sendo fundamental que a pessoa que as procure tenha fé de que é possível curar-se das suas maleitas. A psicomagia nasce então de paradigmas e ferramentas xamânicas, da psicanálise, da intuição, do misticismo e da filosofia oriental Zazen japonesa.



A sua prática assenta na premissa de que os actos simbólicos são entendidos pelo inconsciente como se fossem reais, sendo através da dramatização desses actos específicos que podemos trabalhar e libertar aquilo que nos perturba. São as metáforas, a poesia e a linguagem artística que alcançam o inconsciente e não a razão. É crucial que o paciente queira curar-se, confie no psicomago, esteja disposto a fazer actos inusitados para mudar a visão errada de si e honre o tempo em silêncio de forma a escutar as mensagens do nosso sábio coração.



Os actos na psicomagia são entendidos como sendo muito mais conclusivos e sanadores do que as palavras, já que qualquer tomada de consciência que não seja agida e vivida acaba por se tornar estéril. Assim, embora tudo seja feito em segurança, o psicomago convida as pessoas a entregarem-se e a realizarem actos que podem parecer estranhos, chocantes, ridículos, ofensivos ou cómicos, de forma a romper com bloqueios viciosos de comportamentos mentais, sexuais, corporais, sociais ou emocionais.

Na verdade, a libertação dos bloqueios e limites do nosso ser é a principal premissa desta abordagem. Depois de ultrapassarmos um bloqueio vai-nos aparecer outro e depois outro e mais outro. Teremos assim de continuamente os ir ultrapassando para atingirmos ou pelo menos ampliarmos o estado de libertação do nosso ser.

Um exemplo do que seria um bloqueio a ultrapassar é a relação que temos com o nosso nome próprio e o peso que pode por vezes acarretar sem nos apercebermos. Jodorowski considera que o nosso nome é uma violação e uma invasão porque não define quem nós somos, sendo-nos logo colocado em cima sem o podermos escolher. 

Para além disso ele é-nos dado em honra a alguém que tinha uma maneira de ser e de estar, que teve uma história própria que desconhecemos. Um tio que se suicidou, um irmão que faleceu, uma ex-noiva ou até o nome de uma figura religiosa. E isso na generalidade dos casos não é saudável pois faz com que a pessoa carregue uma história como se de um fantasma se tratasse, não dando espaço para ela descobrir quem realmente é.

Essa iluminação, essa luz seria assim um estado interno de transparência onde se perde o peso material que carregamos.
Outro exemplo é a identificação com a nacionalidade! Qualquer pátria possui uma história de violência, de gente sedenta por poder e insuflada pela necessidade de expandir o seu domínio. Foi feita por meio de roubos, estupros, destruições, enganos e sofrimentos que ficaram registados ao longo de muitas gerações. Baseiam-se em fronteiras artificiais criadas pela tradição e que existem fundamentalmente no intelecto das pessoas. A mente divide as coisas e coloca-lhe fronteiras, mas acima de tudo nós somos terráqueos e fazemos parte de uma vida que não tem tamanho, de um corpo que responde e se constitui numa interrelação multidimensional desde o átomo do microcosmos às galáxias do macrocosmos.

Nesse sentido, a psicomagia procura a iluminação do nosso ser através da libertação destas e de muitas outras associações de identidades que são criadas no seio da família, da sociedade e da cultura, de forma a não repetirmos os guiões de vida e os sofrimentos vividos pelos nossos antepassados. Essa iluminação, essa luz seria assim um estado interno de transparência onde se perde o peso material que carregamos. A mente humana tem então de se abrir para o tamanho da terra e do universo, dar-se conta de si, dos outros, do planeta, dos continentes, das massas, estrelas, insectos, micróbios e de tudo.

Para além desta abertura da mente, a psicomagia usa também o coração e o seu desejo mais profundo que é o de se unir, de atravessar a pele e entrar nas coisas, nas palavras, nas pessoas, na existência. À medida que se vai entrando nas coisas, as coisas vão entrando em nós, vão-nos atravessando num movimento duplo.

Que não existe propriamente um "Eu" mas que existe sim uma vida que atravessamos e ela nos atravessa.
Devemos reaprender a ligarmos-nos a este espaço vazio de energia vital e universal que também somos, a este algo que não é tangível nem passível de definição, não visível e indizível. Que não existe propriamente um "Eu" mas que existe sim uma vida que atravessamos e ela nos atravessa. Este corpo que temos e somos tem um espírito que se corporaliza, se materializa. E este espírito atravessa e habita este corpo, espiritualizando-o.
Contudo este processo de libertação é muitas vezes doloroso e nem todos o querem tomar. É como perder o laço com a nossa tribo, ou com a família. Causa-nos depressões terríveis e somos assombrados pelos terrores mais pré-históricos. Mas há que encontrar talvez um meio termo. Abrir verdadeiramente um espaço no nosso ser para também viver o que é nosso, dar oportunidade para conhecer a nossa essência para além daquilo que nos foi passado. Não usar máscaras, não parecer o que os outros querem ou esperam que sejamos. Não carregar os problemas dos outros aos nossos ombros. Carregamos-nos a nós próprios nos nossos ombros para procurar fazer exclusivamente aquilo que nos alegra a vida. E darmos oportunidade aos outros de fazerem o mesmo.

Para toda a magia acontecer, Jodorowsky aconselha-nos a ampliar a nossa mente e libertá-la do maior número de bloqueios possível, a usar o nosso coração e a sua sabedoria de união e por fim, porque não, praticar um sexo bondoso sabendo que o desejo sexual é no fundo um desejo existencial, um desejo de existir. Pelo caminho, nada como conhecermos-nos a nós mesmos, não complicar nem adicionar mais coisas do que o necessário e compreender que afinal, tudo é uno.

João da Fonseca


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