Academia da Essência Humana | Lição 2 | CHOCO À LAGAREIRO

Academia da Essência Humana | Lição 2
CHOCO À LAGAREIRO

Olá! Olá! Sejam bem-vindos!

Esta segunda lição da Academia da Essência Humana foi baptizada com um título gastronómico. À primeira vista isto pode passar a ideia de que vamos falar de receitas ou preparar um prato, no entanto, como acontece com quase tudo na vida, há sempre "mais" para além daquilo que avista alcança. As palavras, descrições ou conceitos nunca podem igualar as pessoas, situações ou experiências a que se referem. Para deixar esse "mais" vir ao de cima é necessário uma pitada de paciência e presença, ingredientes que parecem estar em extinção nos dias que correm. Com as pressas crónicas, falta de tempo e estimulação exagerada da nossa sociedade actual, parece que deixámos de saber dar o tempo necessário para ficarmos com as coisas, contemplá-las e ir ao encontro da sua inerente profundidade.

O que parece reinar é esta espécie de frenética fuga para a frente, sem se quer sabermos olhar para a ânsia que a impulsiona. Não saber ficar com as coisas é o equivalente a tirar uma fotografia a alguém e dizer que a conhecemos bem. E é por isso que este "Choco à Lagareiro" merece uma oportunidade.

Assim sendo, a vivência que trago hoje surgiu num dia de formação em Interactive Focusing, uma das muitas variedades do Focusing onde quem escuta pode ter um papel mais activo através da devolução de imagens, metáforas, palavras, sentimentos ou algo que ocorra espontaneamente quando se escuta o outro. É especialmente eficiente na resolução de conflitos. Mas tudo isto é feito com uma estrutura organizada onde se respeita a vez e o ritmo de cada um, ao invés das conversas mais atabalhoadas que ocorrem na generalidade das situações. A estrutura aqui não atrapalha a fluidez nem a espontaneidade de uma interacção, mas dá-lhe,isso sim, um suporte e uma referência para onde as pessoas se podem voltar em caso de dispersão.

Lição 2 | Choco à Lagareiro

Então a primeira coisa a fazer é tentar encontrar um evento ou situação da minha vida, seja de hoje ou de há muito tempo atrás, mas que tenha mexido comigo, me tenha vibrado nos ossos como dizia Vergílio Ferreira. E depois tenho de contar uma curta história sobre isso, mas que toque no essencial. É isso, certo? É interessante sabes, do que tinha aprendido até agora sobre o Focusing eu estava mais habituado a dar atenção ao que me aparecia no corpo ou a trazer um tema específico da minha vida com que tivesse a lidar. E isto que propões tem algo diferente. É como se contar uma história me permitisse endereçar algo que é meu mas que viesse com a leveza de um conto ou de uma lenda. Acho que vou gostar disto.

Hmm....já sei! Passou-se algo hoje à hora de almoço. É a primeira vez que estou neste local por isso pouco ou nada conheço destas redondezas. E então resolvi pedir recomendações de restaurantes aqui na zona e disseram-me que havia uns quantos para a esquerda e que para a direita tinha que se andar muito até chegar a algum lado. Mas houve algo na maneira como a pessoa me falou sobre os restaurantes, sem explicitamente falar sobre eles, que me fez querer ir pela direita. E como até estava a precisar de andar um pouco, aproveitei e segui caminho.

Ao ir andando senti estranhamente que algo em mim parecia "saber" para onde se dirigir, apesar de não o saber em consciência. Acabei por ir dar direitinho a um restaurante de canto com o menu colado num mostrador e escrito numa folha de papel branco de mesa, onde estavam muitos pratos típicos portugueses. E saltou-me à vista o "Choco à Lagareiro". Entrei, pedi o prato e esperei.

Enquanto teclava algo no telemóvel, ia ficando um pouco inquieto com a demora e preocupado por causa das horas de regresso. Eis então que me chega finalmente a travessa à mesa. O empregado pousou-a à frente do meu prato e de repente, o aroma da comida quente envolto na nuvem de vapor chegou-me ao nariz e aí, todo o meu Ser reagiu imediatamente àquilo! Senti como se o meu nariz se tivesse expandido pelas células todas do meu corpo, como se elas fossem todas antenas parabólicas desalinhadas e que de repente se apontam cirurgicamente para o que estava na travessa. Nunca tinha cheirado algo assim tão bom! Ou pelo menos há muito que não me lembrava de algo do género.

O cheiro do choco acabado de sair da brasa, da batata, do alho, do azeite, até o bróculo cheirava maravilhosamente! Toda aquela sensação deu-me a certeza de que eu iria absolutamente adorar aquela comida, antes mesmo de eu a começar a comer. E assim foi, o prato estava mesmo divinal. Fui ter com os senhores, dei-lhes os parabéns, uma gorjeta e perguntei de onde vinham os ingredientes. Disseram-me que era tudo fresco e que havia um senhor amigo deles que plantava os legumes no seu próprio quintal.

E foi isso! Então agora devolves-me tu aquilo que ouviste da minha experiência mas também o que sentiste genuinamente com isso.

Hmm...estou agora a processar o que me disseste. A palavra "perdido" que usaste não ressoa bem comigo porque eu não estava perdido, ou seja, eu não sabia por onde ir conscientemente, mas dentro de mim havia uma direcção muito clara que me levou ao restaurante. Foi como se eu me deixasse ser levado embora sem saber realmente para onde. Apesar da palavra "perdido" não encaixar foi muito bom ouvi-la de volta porque fez-me clarificar melhor o que foi a minha experiência. Agora percebo como havia mesmo uma direcção clara e que é mesmo importante eu dizer e ouvir essa palavra, "direcção!".

E essa imagem que me devolves de eu estar a andar numa selva desconhecida onde não se consegue ver nada por causa da densidade da vegetação, mas que há algo em mim que sabe para onde fica a praia ou a agua....sim, isso encaixa e ressoa mesmo bem com a minha experiência e parece abri-la ainda mais. É como se me apercebesse que a minha visão não vem só daquilo que me chega do exterior através dos olhos e viesse também a partir de dentro de mim. Bem! Até respiro fundo ao dizer isto, como se algo tivesse a ser tocado cá dentro.

E há algo mais na experiência do choco...na verdade prefiro dizer neste "Choque do choco!" (risos). É que isto embora tenha sido uma experiência fantástica, faz-me ao mesmo tempo sentir alguma revolta. Deixa-me ver melhor o que está aqui...Ah! Já percebi! É que esta experiência do choco parece ter acordado as minhas células todas para uma vivência primordial, como se as células se estivessem a lembrar da sensação de comer comida a sério, real, biológica e natural. E a revolta vem de eu passar nos supermercados e ver que as batatas doces, as beringelas, a fruta, tudo aumentou ultimamente para o dobro do tamanho! E de como sei intrinsecamente que tudo isso é à base de muita porcaria que lá metem para os alimentos crescerem,e crescerem rápido. É como se metessem esteróides na comida!

Revolta-me perceber como todo este viciado sistema da qual alguns supermercados fazem parte, altera a comida para aumentar os lucros e aqui o povinho vai consumindo aquela porcaria que aparentemente tem sabor mas que não causa qualquer efeito no corpo. Não tem nada a ver, nada que se compare com a sensação física que tive com o choco à lagareiro. É como se fosse algo morto ou estéril. Se calhar os únicos efeitos que esta "comida dopada" provoca é a intoxicação do corpo de uma forma suavemente insidiosa. E tomar consciência disto dá-me também vontade de querer ir viver para o campo ou ter o meu quintal onde possa criar os meus próprios alimentos. Pela minha saúde e a dos meus!

Não fazia ideia que havia isto tudo a habitar nesta minha vivência (suspiro). Estou a dizer-te isto e ao mesmo tempo a ter uma sensação de novidade, frescura e esclarecimento.
Como é possível estas experiências conterem tanta profundidade...? E que ironia esta, a de que ao ir-se à profundidade das coisas acabamos por nos elevar e ficar mais leves. Mas também é verdade que é preciso saber ir la abaixo sem nos afogarmos.

E continua aqui mais qualquer coisa. É algo ligado à palavra “confiança” que me disseste há pouco, quando me devolveste o quão significativo foi para ti aperceberes-te da confiança que tive neste meu sentir da coisa, seja em ter encontrado aquele restaurante seja com o choco. Sabe bem ouvir isso mas também é esquisito sabes, soa-me melhor dizer que foi a clareza deste sentir do corpo que me deu confiança e não o contrário. Curioso, apetece-me sondar e ficar um pouco mais com estas palavras de"clareza" e de “confiança”.

A sensação que me está agora a vir é quase indescritível de tão poderosa que é...mas ao mesmo tempo, sinto-me um pouco envergonhado e com receio de falar dela. Espera um pouco...preciso de um tempo para conseguir ter espaço interior para dar atenção de forma justa a estes dois lados, à experiência indescritível e à vergonha. As "coisas" cá dentro ficam bem mais serenas se nós nos comprometermos a dar-lhes atenção, em particular aquelas que não gostamos ou não queremos.

Então, o que está a vir agora do lado da vergonha é que ela aparece por causa da presença do meu "crítico interno". Ainda bem que já aprendi a não ser uma vítima dele e a estar atento à sua presença. Por norma "ele" aparece quando estou perante coisas que me podem deixar vulnerável ou frágil, mas também perante coisas novas e positivas.Tenho de manter um certo espaço dele, sei que vai no sentido de me proteger ou avisar de algo mas não posso perder o contacto com o que está aqui e agora a desvelar-se. Bom...já passou, já me sinto seguro para deixar isto vir cá para fora.

Então é como se me sentisse a tocar na fonte da algo muito ancestral que pertence a este planeta. Como um manto de vida, amor, consciência e conexão com e entre tudo. Esta imagem e esta certeza absoluta como se houvessem uma espécie de antenas parabólicas no meu organismo que sabem coisas antes de eu as perceber. E sinto que elas não estão só a ressoarem comigo pois também ressoam com o ambiente que há à volta, o espaço envolvente, a natureza, o cosmos, eu sei lá.

Como se fizesse parte de uma espécie de rede invisível, que algo em mim interage com o exterior de formas misteriosas. Ups! Lá está o meu crítico a aparecer outra vez (risos). Ele está mesmo atento e dedicado à missão de evitar que eu pareça um louco para as outras pessoas ao dizer estas coisas esquisitas. E agora vem-me à ideia aquela frase do Gendlin. Não sei se era isto mesmo que ele queria dizer, mas para mim a frase faz agoramuita mais sentido. A de que "A sensação que tens do teu corpo físico é parte de um sistema gigante de lugares próximos e longínquos, de tempos presentes e ausentes, de ti mesmo e de outras pessoas - na realidade, do universo em si. Esta sensação de estares fisicamente vivo dentro de um vasto sistema, é o teu corpo sentido por dentro”.

E é verdade, sinto agora mais do que nunca essa certeza, essa confiança a crescer firme como uma árvore, e sinto toda a legitimidade para afirmar que "Sim! Isto é real!". Isto está à minha volta, uma espécie de recreio cósmico para explorar. Nem quero saber o que as pessoas pensam do que estou a dizer, não há prenda maior do que eu próprio sentir, perceber e respirar isto em mim.

Quase que parece uma união mística. Se calhar foi a partir deste tipo de experiências que alguém se deu ao trabalho de criar estas palavras. É isso! É fundamentalmente uma experiência de união e acho que secretamente todos anseiam ou buscam por algo do género naquilo que fazem na vida, naquilo que tentam ser. Seja a fazer amor, a celebrar quando a sua equipa marca um golo, num abraço, a dançar, quando se é reconhecido no trabalho, quando cantas num coro, ouves alguém dizer que te ama ou comes um choco à lagareiro daqueles (risos). Sim! Todas as nossas células ficam ligadas a tudo,a pulsarem de vida e intensamente vibrantes quando este tipo de coisas acontece!

Não admira...as nossas células estão programadas para esse tipo de ligação e união logo desde que nascem. Tudo começa já dentro do útero da nossa mãe e talvez depois de nascermos isso deva continuar cá fora, neste útero maior, neste vasto sistema. Mas é verdade. Falta confirmar isto cientificamente e culturalmente. Falta podermos provar ao mundo que isto está aqui. Ter certezas é bom, mas não façamos também com que a infinidade misteriosa da vida se torne num escravo delas.

Como tudo isto se liga eu não faço a mínima ideia, mas consola-me tanto saber na profundidade do meu âmago que até ao dia em que eu morrer, isto vai estar sempre comigo.

João da Fonseca

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