Academia da Essência Humana | Lição 1 | RELEMBRAR, COMPREENDER E RECONECTAR

Academia da Essência Humana | Lição 1

RELEMBRAR, COMPREENDER E RECONECTAR
Olá! Olá! Sejam bem-vindos!

Como prometido, vamos começar a partilha de vivências e viagens interiores que emergem das Parcerias de Focusing. Nada disto é ficção, provem de pessoas reais em situações reais que consentiram que eu as articulasse e colocasse por escrito.

Serão descrições quase ao vivo sobre essas experiências que servem para que cada pessoa que as leia, compreenda por dentro aquilo que caracteriza o Focusing e o que ele promete, em particular se o disponibilizarmos a mais gente. Também tenho de confessar que faço algumas adições. Não sobre as vivências das pessoas mas de associações que faço dessas vivências com temáticas que considero estarem relacionadas com psicologia, terapia, espiritualidade e a existência em geral.

Quem quiser ver mesmo ao vivo o processo, aconselho a visionarem estes dois vídeos, um feito presencialmente com Eugene Gendlin, o criador do Focusing, e outro realizado online entre uma pessoa que estava em Nova Iorque e outra em Israel. Isto só demonstra a acessibilidade e versatilidade deste processo para fluir em diferentes condições e meios.

Os nomes das pessoas nestas próximas publicações nunca serão mencionados, apenas uma narrativa das suas vivências e acima de tudo aquilo que depois inspiraram. O anonimato permite o agraciado "sacrifício" de nos centrarmos mais na mensagem do que na pessoa, embora esta não deixe nunca de ser igualmente valiosa. Prontos? Então aqui vai!
Lição 1 | Relembrar, Compreender e Reconectar
Ontem passei por uma experiência do tipo "noite escura da alma". Há uns meses atrás o meu noivo separou-se de mim. De repente, deixou de me amar e tudo foi descambando até se tornar num marasmo insuportável para os dois. E ontem andava quase que a sentir chagas na minha barriga que eram acompanhadas de imagens dele com outra mulher. A agonia era tanta que mal conseguia respirar. Tentei ocupar-me, distrair-me, tocar piano, mas o ardor das chagas ia-me queimando por dentro.

Ao mesmo tempo que fazia o que podia para me escapar daquilo ou procurar alívio, houve sempre algo cá dentro a sussurrar-me, uma sensação ou isso, sempre a dizer-me para me ir deitar na carpete da minha sala. Em desespero, depois de pausar e respirar fundo, deixei de tentar resolver aquilo e entreguei-me à última coisa que me restava, prostrando-me na carpete como um padre ortodoxo.

Mas rapidamente me comecei a contorcer em posição fetal, a balancear-me de um lado para o outro e finalmente apeteceu-em começar a gemer como uma carpideira. Sim, a gemer como se isso fosse a única forma de expressar a minha agonia e aliviar o ardor das minhas chagas. Por um lado, ainda bem que agora só o meu gato é que vive lá em casa comigo. É que ontem parecia mesmo que estava a parir o demónio.

E hoje acordei tão diferente. Mais leve e esclarecida. Rapidamente olhei para o meu dia e decidi pô-lo em ordem como há muito não o fazia. Como se de repente me tivesse sido dada uma nova luz. Uma nova janela abriu-se e agora aqui a falar contigo começo também a ver o que se passou ontem através dessa nova janela e como tudo parece estranhamente estar a ganhar um novo sentido.

Foi como se ontem houvesse um conflito entre o meu coração e a parte de mim que o queria proteger ou aliviar. Sim! Partes de mim porque ambas fazem parte de mim, certo!? Se sou uma também sou a outra! Hum...mas partes....não me soa bem....é mais...lados. Sim! Lados soa muito melhor! Era o lado do coração, o que ele estava a sentir e a tentar mostrar-me e o outro lado de mim que se sentia responsável por resolver o assunto ou por reagir da "melhor maneira" à situação. Mas eu não estava a resolver nada, quanto muito estava a tentar salvar-me a mim própria daquilo que estava cá dentro. Estava sem saber o que fazer e acima de tudo com medo daquilo que podia acontecer se eu desse espaço a essa dor, se eu lhe desse voz e expressão.

Mas agora estou a conseguir dar-lhe esse espaço. Agora estou a perceber o que ele me estava a tentar mostrar enquanto eu olhava para um outro sítio procurando a salvação. É como se ele me tivesse estado sempre a dizer "Mas eu amo-o! Eu ainda o amo e quero continuar a ama-lo! Como me podes estar a dizer para não o fazer ou para esquecer isso!? Aquilo que eu sempre senti nesta relação é como aquela canção de "ser um amor para a vida toda! Não me podes pedir para abdicar disso! Quem sabe o nosso amor é tão forte que ele se calhar fez isto inconscientemente para mudar algo para melhor. Ele só está é confuso e não tarda vai perceber a imensidade deste amor e voltará para mim!".

Ah pois é! O meu coração só estava a fazer aquilo que sabia fazer. Uau! Preciso de tirar-lhe o chapéu por tanta coragem. Isto está-me a abrir tanto os olhos! Como se tivesse a ser relembrada da sua essência, a compreender quem ele verdadeiramente é a voltar a reconectar-me com ele como nunca antes fiz. Percebo agora como ele foi feito para amar, que é essa a sua natureza e que de nada adianta tentar mudar isso. E que embora tivesse perdido irremediavelmente o altar onde se entregava, eu não podia impedi-lo de continuar a querer, continuar a amar. E estou a dizer-lhe isso agora, "Sim! Tu foste feito assim, para amar, e não vou contrariar mais quem tu és. Vou ser o teu amigo fervoroso e ajudar-te a amar outra vez. Vou ser o teu guardião e prometo-te isso para todo o sempre!"

E que estranho...agora parece que o sinto a abrir-se...a elevar-se...e a expandir-se. Como se tivesse no topo de uma montanha ou arrumado na prateleira certa. Como se ontem ele tivesse estado na cave dos infernos e agora está a encher-se de esperança, de força e a sentir que voltou a ocupar o seu lugar de direito. Meu Deus! Acho que não aguento sentir tanta beleza!

Foi bom este choro e este silêncio...mas desculpa-me este riso despregado, eu explico-te. É que comecei a pensar como se cá dentro o meu coração tivesse sido promovido e desatei-me a rir. Foi promovido a outro nível existencial! E agora, ao ouvir-te a refletires-me estas coisas que te conto de volta, sinto como algo tivesse a pincelar cores na tela do meu coração, como se aqui estivesse a nascer um arco-íris depois de tanta anemia e negrume.

Os meus olhos levam-me agora para a entrada da minha cozinha, o lugar onde preparo aquilo que me alimenta. E vejo que lá está uma pequena chapa com algo escrito que o meu noivo me ofereceu no principio da nossa relação e que sempre adorei. É em inglês e diz "Listen to your heart. It maybe on your left but it is always right!". Escuta o teu coração. Ele pode estar à tua esquerda mas está sempre direito...ou certo, porque está em inglês. E o curioso é que em vez de isso me fazer sofrer ou espernear internamente como acontece com todas as lembranças vazias desta relação que me assombram no dia-a-dia, estou-me a sentir agraciada, grata por o meu noivo me ter dado aquilo. Há meses que não me sentia grata por nada disto pois só havia um emaranhado de dor, incredulidade, raiva e tristeza.
Sabes, este conflito interno todo faz-me lembrar de como se passa o mesmo quando os pais tentam "educar" as crianças. E acho que no fundo, bem lá no fundo eles também não sabem o que estão a fazer. Ficam ansiosos e preocupados em ensinar regras, maneiras de se comportarem, coisas culturais e a tentar adaptá-los da melhor maneira ao mundo lá fora sem se quer olharem e conectarem com o mundo que elas já trazem lá dentro. Um mundo novo.

Que cegueira! E ainda por cima não se apercebem dela. É que acabam por não dar espaço ao que há de mais puro e incondicionado na criança. Como eu a abafar o meu coração. Espero que num futuro próximo passem a reconhecer isto como uma violência cultural, uma verdadeira e silenciosa violência que força-nos a todos desde crianças a adaptarmos-nos ao mundo decrépito dos homens, sem dar voz ao que trazemos de novo, de só nosso e que pode mesmo trazer novas luzes para aquilo que já existe. Infelizmente, a maior parte das pessoas não consegue ver como estas violências continuam a acontecer em todo lado e em diferentes graus, nem como às vezes elas próprias são vítimas disso.

Impressionante o insight que estou a ter agora! Acho que esta ansiedade dos pais é um sinal de que o que está a acontecer de facto é uma desconexão na relação com a criança. E é mais do que provável que eles próprios estejam bastante desconectados do seu interior, pois foi isso que lhes ensinaram. Ensinaram-nos como falar, como se comportar, como pensar, sobreviver, mas nunca os ensinaram a escutar o que sentem, a ouvir o que vai cá dentro.

E não estou a dizer isto com sentimento de superioridade porque sei que isto são heranças transgeracionais que já vem de há muito tempo. O nosso DNA não transmite só características fisiológicas. Mas estou a dizer isto com imensa compaixão. É que quando se comunica a este nível tão profundo e elevado tudo fica bem, tudo fica certo, pacificado e muitas vezes num estado de graça indescritível.

Sabes, acho que devemos começar a formar professores de essência humana! Professores do coração! Uma academia que ensine poesia orgânica.

Estou tão, tão grata! A tudo o que aconteceu e a tudo o que aqui-agora está entre nós.

João da Fonseca

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